Serão as prisões espaços habitados como sugere o título deste livro? Quando eu era estudante de Direito em Coimbra, o Doutor Eduardo Correia, Mestre Penalista, levou os alunos a visitar as penitenciárias. Vem-me desse tempo longínquo uma certa ternura pelos que cumprem uma pena ou uma penitência. Na época, a cadeia era a última escala da degradação humana, talvez por perdurar ainda, no inconsciente colectivo, a memória ominosa dos cárceres da Inquisição como antecâmara da tortura e da morte. Retenho dessa visita antiga – renovada e avivada, mais tarde, pelos meus deveres profissionais – a ideia de que os espaços celulares não são, realmente, habitados, porque cada recluso é um virtual evadido, um foragido em potência, tão forte é a pulsão da liberdade.
Conta-se, a propósito, a história da bicicleta para ilustrar esse nosso instinto profundo. Um condenado desenhou nas paredes da cela uma bicicleta. E todos os dias, à tarde, quando o Sol se despedia acenando-lhe pela guarita, sentava-se na enxerga a contemplar o desenho. O guarda, desconfiado, perguntou-lhe para que servia a bicicleta.
- Ora – disse o preso com um ar inocente – para dar um passeio no prado.
É bem certo que não se pode agrilhoar o pensamento, e que a liberdade é, sobretudo, um estado de alma. Por isso Fénelon pôde escrever que “o mais livre de todos os homens é aquele que consegue ser livre na própria escravidão”.Foi no mesmo sentido que também eu escrevi num poema que, nas prisões, “o tempo é um lugar desabitado”, certo de que só o corpo pode ser encarcerado, porque a alma, se é grande, rompe todas as grilhetas. A nossa cultura popular tem, aliás, uma expressão que traduz essa esperança de libertação, quando se diz de um preso que “está a ver o Sol aos quadradinhos”. Mesmo atrás das grades, o Sol continua a ser a metáfora maior da liberdade. Ao invés, os franceses acentuam o lado trágico da reclusão, ao exprimirem a mesma ideia por “ estar a apodrecer numa enxerga”.
A vida prisional sempre constituiu matéria diegética para os criadores literários. Camilo, com Amor de Perdição, Saramago, com Levantado do Chão e Mário Cláudio com Ursa Maior, são exemplos de como a liberdade é, recorrentemente, manancial de inspiração. Mas as prisões não foram apenas, ao longo dos tempos, lugares destinados ao cumprimento das penas judiciais. Foram, e continuam a ser, instrumentos de opressão de ditadores e de fanáticos. Damião de Góis, Gomes Freire de Andrade e Miguel Torga são exemplos de como, neste caso, continuam habitadas pelos protestos de todos os que pagaram com a liberdade o seu amor à liberdade. E mesmo aqueles que ali expiaram o preço do seu comportamento anti-social, hão-de ter concluído que nada vale o prazer simples de passear à tarde, de bicicleta, pelos verdes prados da ... liberdade.