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Devorando o Tempo

João Lobo AntunesProfessor da Faculdade de Medicina de Lisboa

Da casa da infância, em Benfica, avistava-se no topo da serra de Monsanto uma construção bizarra com a forma de um pudim achatado. Era a prisão.

Contavam às crianças que o avô paterno aí estivera preso depois de uma revolta monárquica e meu pai, na altura com três anos, aí o visitara. Fora um acto de heroísmo romântico de oficiais e cavalheiros que me marcou para sempre, e cuja relação como um pesadelo recorrente que só há pouco tempo desistiu de me afligir, não consigo desvendar.

De facto, desde sempre me recordo de sonhar que tinha morto alguém – uma vítima sem face e sem nome –, que a enterrara no jardim da casa, e que o crime estava na iminência de ser descoberto por um grupo de homens com uma farda indistinta, que escavava a terra para reparar os canos da água ou lançar cabos de telefone. Acordava em pânico, mas o sonho era de uma realidade tão aguda, que só se evaporava depois de um esforço racional para o desmentir. A antiguidade deste pesadelo desmente que ele representasse simplesmente a má consciência de um cirurgião, mas dava corpo talvez ao fantasma do meu horror a qualquer forma de prisão, embora uma vez me tivesse interrogado de outro modo sobre o sentido mais secreto da liberdade. Foi quando visitei um convento de Carmelitas e invejei a paz angélica de quem me falava do outro lado das grades; e duvidei então se não seria eu o prisioneiro.

A prisão de Monsanto por onde passava com frequência, impressionava a imaginação do miúdo que era, pela altura de um muro que parecia servir dois propósitos – não deixar escapar os que lá estavam dentro, e não os abrir à curiosidade dos que estavam de fora.

Há por isso, para mim, algo de inevitavelmente indiscreto neste álbum de ilustrações de uma vida feita de vidas aprisionadas, que parecem continuar, imperturbáveis, homens e mulheres conformados numa outra rotina, entretidos em novos ofícios e lazeres, invocando contudo a mesma fé antiga. A fotografia, como disse Susan Sontang num admirável ensaio sobre fotografia de guerra, como forma de retórica, reitera e simplifica, tornando assim “real” ou “mais real” um tema que os privilegiados ou apenas seguros de si preferem negar, e este é um tema incómodo.

O tormento, escreveu ainda Sontag, foi sempre um tema canónico em arte. O revelar da abjecção da prisão de Abu Ghraib, ou as seis mil fotografias de “intelectuais” e “contra-revolucionários”, apenas uma porção dos milhares que os Phnom Penh exterminaram, entre 1975 e 1979, numa escola feita prisão (e esta transmutação é outra forma de assassínio), são por isso mesmo um testemunho que inspira uma insuportável repugnância moral. Curiosamente, nesta série, foi a fotografia dos sapatos dos detidos alinhados nas prateleiras, que mais me perturbou, porque para mim evoca imagens de campos nazis, e a aniquilação da pessoa pela sua redução à simples unidade numérica.

Na sua ilusória placidez, as fotografias que constam deste livro parecem diluir, numa aguada de vários tons de cinzento, o sofrimento que a simples privação da liberdade – e esta é, para mim, acima de tudo, a expressão da pulsão biológica mais primitiva –, necessariamente determina. Não revelam a violência, o crime, a doença, a dor, ou o submundo que estilhaça a humanidade dos que nele habitam, e que, dentro daquelas paredes, por vezes recria a condição que os aferrolhou, mas há nestas imagens uma paz inquieta, uma palpável desolação.

Estas fotografias são ainda um testemunho impressionante de resilência do Homem, como a vida se regenera, como este ser gregário, a quem milhões de anos de adaptação evolutiva ensinou os truques da sobrevivência, vai, dentro de uma prisão, devorando o tempo, tempo que, naquela circunstância, lhes irá abrir a porta.