Os espaços, como os corpos, querem-se habitados.
Faz parte da essência da vida que assim seja. E da condição humana também.
As prisões são espaços habitados, cheios de vidas pequenas, por vezes de uma grandeza oculta, onde, nalguns casos, não cabe a própria vida. E são espaços onde, ocasionalmente, ainda é permitida uma outra liberdade, aquela que não se circunscreve aos limites dos corpos, mas que se carrega nos percursos de um pensamento que apenas se aceita às pessoas capazes de evidenciarem outros mundos.
As prisões estão cheias – literalmente cheias – de pessoas, com os seus sonhos, pesadelos, anseios, emoções, ódios, desejos. Estão ainda cheias de coisas, de objectos estupidamente úteis, mas normalmente austeros. E também de rotinas que, depois de bem interiorizadas, se assemelham a percursos perdidos na vida. Curtos, à imagem das passadas das crianças que mal sabem correr. Balbuciantes, na procura de um ritmo perfeito, que se quer conquistado antes de tempo.
Também por isso são espaços habitados, ainda que apenas com a sucata que serve para acomodar os destroços que carregam os que nada têm para exigir, transportando essa leveza insustentável que os torna pesados, mesmo depois de tudo desistirem e esquecerem.
As prisões são os lugares onde se guardam as más consciências das nossas audácias, ainda que libertinas. Onde se acomodam os silêncios dos que não conseguem gritar a revolta.
Por tudo isso, as prisões não são espaços para se viver. Nem para serem vividos.
Apenas para se estar, de preferência o menor tempo possível. São locais onde nem mesmo os sonhos às vezes são permitidos, porque as paredes, grossas de tijolos de ferro, impedem qualquer ligeireza às ideias soltas e libertas.
Um pouco por tudo isso, as prisões, ainda que habitadas, não são espaços de liberdade.
Um recluso não tem a liberdade própria dos barcos que se perdem no mar, restando-lhe apenas aquela que se conquista nos portos de abrigo em tempo de ondas fortes e grandes tormentas.
E nunca o pensamento foi tão livre, em qualquer lugar, em qualquer circunstância!
Engano. Puro engano. O pensamento só é livre quando não depende de vontades insatisfeitas, quando não precisa de alimentar o corpo com aquilo que ele não tem ou não pode ter.
Nas prisões o pensamento transporta-nos a uma realidade por construir, a um tempo que não existe, que não tem presente, e a um futuro que, de tão longe, não se percebe.
Nas prisões tem-se muito de nada. Falta quase tudo.
Falta o espaço, falta a liberdade de o usar, faltam as regras construídas à medida de cada um, falta a linha do horizonte, a alternância entre o campo e o mar, as ondas cheias, a luz, outros cheiros que não sejam os dos outros, outros olhares que não aqueles que pertencem às pessoas de todos os dias.
Acima de tudo, falta a alma, Um destino por cumprir.
É realmente um tempo sem tempo, inacabado, que se quer esquecer.
Um tempo que , vivido, não apetece voltar a ter.