Há espaços que nos convocam a uma reflexão sobre o outro.
O outro, que tão facilmente referenciamos como a razão de ser ou a motivação de muitas das nossas intervenções cívicas, não passa, em muitas circunstâncias, disso mesmo: duma mera referência.
O outro, que tão facilmente invocamos como sustentação da nossa afirmação de princípios de matriz humanista, não passa, em muitas circunstâncias, disso mesmo: duma mera invocação.
O outro, objecto mediato das nossas intenções de solidariedade e de ajuda, transforma-se, assim, muitas vezes-demasiadas vezes-numa mera figura de um estilo literário que, com mais ou menos brilhantismo, se queda pela torrente das palavras, que incomoda o nosso bem estar, que perturba as nossas consciências, mas não produz qualquer consequência prática.
O outro está lá, distante do nosso quotidiano, aqui e acolá cruzando-se com o nosso próprio destino, fazendo-nos tropeçar na fragilidade da efectiva concretização das nossas intenções mas mantendo-se, perseverantemente, como fonte inspiradora das nossas reflexões sobre uma sociedade que cuida mal dos que, por este ou aquele motivo, dela foram excluídos.
O outro é, assim, cada vez mais, empurrado para a exclusão. A sociedade dos nossos dias potencia a exclusão.
A competitividade que obriga ao individualismo, a pressão da distinção pelo ter mais do que pelo ser, a ausência dum estatuto de dignidade para a classe média do saber, a inexistência, cada vez mais, da disponibilidade do núcleo familiar para suportar o necessário equilíbrio emocional de cada um, a informação, cada vez mais rápida e visível, sobre paradigmas de vida que preenchem o imaginário – outrora supostamente inacessível e agora à curta distância do click da Internet ou da televisão, que levam à confusão do virtual com o real – tudo isto conduz, entre várias outras circunstâncias similares, à busca do refúgio da droga, que transporta à delinquência e que pontapeia para a prisão.
Há espaços, que encurtam, drasticamente, a distância que separa a teoria da realidade.
A prisão é, talvez, o mais impressivamente assim.
Um Estado que se reclame do estado de direito, que acredite no homem, que assuma as suas responsabilidades quanto ao que falha no ensino, na educação, na economia, na saúde, na justiça, etc... tem que, como mais elementar forma de reparar os seus erros e omissões, tratar do seu sistema prisional como padrão de referência duma sociedade que crê – deve crer – de forma inequívoca, que é possível recuperar e ressocializar quem, num determinado momento da sua vida, foi conduzido para o lado cinzento da vida.
Um Estado que se reclame do estado de direito não pode conviver, conformado, paredes meias com a consciência de quem recolhe à prisão, para reparar um mal que cometeu, receba desta um mal não raras vezes maior assente numa droga, que não existia, dum trauma sexual, que não existia, ou não integração numa rede de malfeitores, de que não fazia parte.
A prisão, que condiciona o bem mais precioso do ser humano, a liberdade, não significa – não pode significar – a condenação perpétua à delinquência mas sim a aposta persistente de que todo o homem tem o direito a uma nova oportunidade e que nos compete a nós que temos, em determinado momento da nossa vida , a responsabilidade de gerir o destino comum, proporcionar todos os meios possíveis para recuperar cada recluso à sua condição de cidadão digno.
Instalações condignas, equipamentos operacionais, programas de ressocialização eficazes, pessoal motivado, leis de execução de penas adequadas, regulamentos equilibrados, etc...são exigências mínimas que concentram os nossos esforços e que nos motivam a prosseguir numa luta que não tem fim mas cujo fim - nobre – nos estimula a não desistir.
É esse o desfio. É o alerta, para ele, que este livro retrata.
Disse Theodore Roosewelt, um dia, que
“ A coisa pior que há na vida não é ter não ter conseguido; é não ter tentado”
Disso não nos poderão acusar!