Escrever um texto sobre o que vi e o que senti quando fotografei neste espaços não se me afigurou uma tarefa fácil, pois a minha “arma” não é a escrita mas sim a fotografia. No entanto, tendo em conta que tive o privilégio de protagonizar um projecto inédito, parece-me de alguma utilidade partilhar esta experiência.
O desafio proposto era aliciante. Entrar num mundo quase impenetrável e inacessível, com menoslimitações do que é habitual. Era realmente uma oportunidade única que eu não poderia recusar. Apesar de ter sido sempre acompanhado de muito perto por um guarda, foi-me possibilitada suficiente liberdade de movimentos para conseguir vivênciar o quotidiano dos diferentes estabelecimentos prisionais que visitei – factor determinante para conseguir alcançar os objectivos propostos de compreender e passar para a Fotografia a dimensão humana destes espaços tãolongínquos dos nossos pensamentos.
Este era, portanto, um tipo de levantamento em que não se pretendia retratos particulares, mas sim retratar o dia-a-dia de pessoas que vivem em condições muito singulares. Assim, a escolha dos estabelecimentos prisionais de Lisboa, Tires, Coimbra e Pinheiro da Cruz, não foi meramente ocasional. Em Lisboa tive o privilégio de conviver com reclusos da ala “livre de drogas”; em Tires pude comover-me com estórias de mulheres (e crianças); em Coimbra conheci os opostos – do ambiente denso e frio de um espaço partilhado por reclusos condenados por prática de graves delitos, passei à afabilidade de um mesmo espaço em que a Arte tinha lugar através do Teatro; finalmente, Pinheiro da Cruz apresentou-se com a singularidade de um projecto de dimensão mais humano e construtivo.
Das cozinhas aospátios, celas, oficinas, cabeleireiros, carpintarias, ginásios e bares, tudo me foi possibilitado registar. E registei. Através da máquina e também do meu intimo. Vi muito e senti muito. E neste livro fica a esperança de poder transmitir uma parte desse muito.
A sensação foi única. Misto de liberdade e prisão. Fui alvo de olhares intrigados e de comentários curiosos:
“Quem é este gajo, pá?”;
“O que é que andas aqui a fazer, meu?”;
“Isto é p’rá SIC?”;
“Eu cá não quero fotografias!”;
“É pá, faz-me um favor, tira-me aqui uma fotografia para mandar à minha miúda que ‘tá dentro, em Tires”
“Granda máquina! Isso é o quê? O quê?! Uma F5?! No meu tempo só havia a F4!”…
Depois, quando conseguia transmitir pequenos Sinais de solidariedade, a aproximação era inevitável e, normalmente, bem sucedida.
Um dia decidi, naturalmente, almoçar com os meus (embora temporários) companheiros. Foi outra experiência inesquecível: O olhar de espanto e os comentários trocistas como “tu vais comer isto pá?!; “isto é uma merda meu” ou “esta comida não vale nada”, divertiram-nos a todos e quebraram definitivamente o gelo.
A ideia que eu tinha de uma prisão era a que me era transmitida pelos filmes, mas com esta experiência privilegiada, consegui alcançar os sentimentos naturais, muitasvezes contraditórios, dos homens e mulheres com quem travei conhecimento. Alguns deles perfeitamente enquadrados nesse seu novo (em alguns casos já velho) espaço, outros completamente, e para sempre, desajustados.
Até aqui, nunca tinha sentido tão convictamente que o bem mais precioso que todos temos é, sem dúvida, a Liberdade. E toda esta experiência me fez pensar a pena que é muitos de nós já termos esquecido o que é viver sem ela.
Para todos os que neste momento estão privados dessa Liberdade e, ainda mais, para os que vivem cheios dela, deixo estas imagens.