Numa vida há coisas essenciais e secundárias, há acções de que temos orgulho ou de que temos vergonha, há momentos de prazer ou de tédio, há tempos de alegria e de tristeza. De tudo, realmente de tudo, é feito uma vida e só nessa imensa diversidade se pode dizer que ganha sentido vivê-la.
Uma vivência só com coisas más é um projecto suicidário. Mas quem só tenha coisas boas para lembrar ou é mentiroso (da pior espécie, que é a que mente a si próprio) ou um dos cadáveres adiados de que falava o poeta.
Um mandato electivo – como aquele que durante três anos exerci como Bastonário da Ordem dos Advogados – pode dizer-se que é uma vida. Pelo menos para quem, como eu, se entrega de alma e coração, sem pausas nem desinteresses, às causas e aos combates que escolheu fazer ou para que a tirania da realidade o empurrou.
Por isso sei que de tudo foi feita esta vida de Bastonário. De muita coisa, de facto, se fez a minha vida nos últimos três anos, cujo balanço não saberia preparar e que – se improvavelmente um dia alguém nisso tiver algum interesse – só o futuro poderá concretizar, desejavelmente com ponderação, frieza analítica e – já agora – uma pitada de tolerância.
No entanto já neste momento eu próprio sou capaz de fazer algum balanço, restrito e provisório, seguramente discutível, naturalmente parcial e inevitavelmente incompleto. Não o quero fazer que não seja para dizer que de tudo o que fiz, nada era mais essencial, de nada me orgulhei tanto, nada me deu tanto prazer e alegria do que o combate em prol dos que estão detidos, as mais das vezes em prisão preventiva, tantas vezes por não terem sido beneficiados pelo “fair trial” que a Constituição exige, vezes de mais condenados a prisão quando outras medidas de punição seriam mais adequadas, muitas vezes vítimas do que os azares da vida e a tragédia da condição humana deles fizeram ao longo dos anos.
Há para isto uma explicação, tão funda e primitiva quanto a minha natural empatia com os danados da terra e da vida. Neste caso, aprendi-a no tempo da escola primária da Sé Velha de Coimbra, onde grande parte dos meus colegas e amigos viviam em condições sociais dificilmente suportáveis por seres humanos. A minha empatia com os presos vem da minha memória infantil da prisão por delito de opinião de meu Pai e da minha própria detenção, exactamente vinte cinco anos mais tarde, também apenas por razão idêntica.
Nestas memórias, a minha própria dificuldade infantil de perceber como tinha sido possível que o meu Pai tivesse estado na prisão onde as histórias para crianças colocavam os malvados, cruzava-se com a pressentida idêntica dificuldade do meu Filho mais velho que, com menos de 3 anos e após a minha libertação, me perguntava o que era uma prisão e porque é que as pessoas são presas.
Por isso foi para mim natural e evidente que a temática das prisões e dos detidos fosse uma das prioridades da minha candidatura a Bastonário, sempre consciente de que o meu dever era lutar pela Cidadania e pelo Estado de Direito e só depois (e em segunda linha) lutar pela defesa dos Advogados, ao contrário do que naturalmente se pede a líderes sindicais e do que pediam muitos Advogados portugueses em processo de crescente proletarização.