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o olhar do preso

MÁRIO CLÁUDIOEscritor

O olhar do preso rasa o corredor das celas, biblioteca de infindas biografias, páginas que se decompõem na imobilidade dos relógios, um sorriso, um berro, uma gargalhada, um espasmo. Escolhe o seu lugar entre o rebanho, prepara-se para afiar os dentes, para endurecer os punhos, para se deixar reduzir pela chave que fecha, mas que abre também. Detém-se no segredo murmurado à orelha, no requinte das volutas de fumo, no pequeno volume ritual que vai passando de mão em mão, um sopro, um estertor, um desmaio, um êxtase.

O olhar do preso aprende o que o ouvido lhe ensina, e já não são olhos, mas faróis, que varrem o estábulo, inventando o sortilégio de uma micha, investigando os estribos na busca de um pedaço de resina. Decora sem querer o instante em que a burdia se cerra, em que chega a enchousa, em que se explica como ir fazer um banco. Está com o frio nos baios, com a necessita de morfar, com o sonho da chavala como um soco no bandulho.

O olhar do preso afeiçoa o talhe dos sapatos, conciso no recorte da dureza da sola, rápido na imposição das gáspeas. Entretém-se com o gel dos cabelos, com a secagem da roupa de dentro e de fora, com a encadernação de um volume de linhas inapetecidas. O trabalho dulcifica as horas, empenha a alma para que não se transvie, e os gestos fixam-se no propósito que levam, desviados do tremor em que se arriscam a perder a direcção, a fecundidade, a solidez, o contorno dos dias.
O olhar do preso escreve o texto que se lhe enreda na garganta, que procede da lembrança de um beijo, de um golpe, de uma traição, de uma mentira. Vai ter à tinta de esferográfica da carta lida e relida, sublinhando o rebentamento da minúscula ampola de sangue, despedaçando a desistência que salda o passado e o futuro. Apaga os versos que dizem lágrimas antigas, matinais claridades, noites de lua cheia, e fica-se por substantivos como cólera e vertigem, maré e comboio, fantasia e loucura.

O olhar do preso prende-se das estampas de Jesus e da Virgem, confessa-se no halo em que se expandem, acoberta-se à colcha de vigilância que lhe dispensam. Perscruta o mosaico na ânsia da passada das visitantes, anunciadora de um bolo, de um retrato colorido, de um cachecol de lã, estonteada no cio que não alcança a foz. Aspira o pólen dos malmequeres que antecedem as praias despidas, alonga-se pelas nuvens de um céu que mais ninguém vê, regressa ao corredor das celas, biblioteca de infindas biografias.

O olhar do preso encontra o olhar perfeito do cão.